Dos dias não tão bons.
Era como se estivéssemos ligados não pelo amor, pela paixão, pela posse ou até pela dependência financeira. Nosso elo era a pura loucura.
Se fosse a minha, tudo bem, estava acostumada ao meu mundo imaginário distorcido.
Mas do outro mundo insano quando entrei eu nada conhecia. E mesmo depois de anos frequentando os becos sujos de sua insensatez, pouco aprendi.
A falta de lógica, de coerência e de verdade fizeram daquele passeio psicodélico um pesadelo colorido.
E quando passei a não suportar mais desafiar tanto as leis do bom senso, soube que havia comprado passagem de ida pra um lugar sem caminho de volta.
__ E quando foi que você começou a mentir?
__ Foi na época que a vontade sumiu.
__ Ela sumiu de repente?
__ Não, não. Foi aos poucos. Daquelas mortes lentas, dolorosas e graduais. Primeiro foi a vontade da cor, depois a vontade da forma. Um dia percebi tinha perdido a vontade do sabor, do cheiro e do som. Quase no fim perdi então a vontade de estar, e quando achei que nada podia ficar mais estranho, daí foi a vontade de ser.
__ Nossa… Acha que ela se foi pa sempre?
__ Acho que não. Suponho que só esteja guardada.
__ E o que te faz então sentir viva, menina?
__ Ah, me sinto viva quando eu
De que me adianta então saber seus nomes, se eles não sabem o meu?
Embora ainda estivesse de roupas, me sentia como se estivesse completamente nua.
No canto esquerdo da cama, sapatos, camisa e uma carteira com fotos de crianças. O quarto era grande, e o mundo lá fora parecia tão pequeno.
Eu olhei para ele e disse:
__ Essa vai ser a última vez.
Ele respondeu:
__ A outra também era, e eu tenho o final de semana inteiro.
Era sábado de manhã e a minha aula de inglês já estava no intervalo. Hi, how are you?
O rapaz jovem ouviu atentamente a proposta sem dizer nada. Nenhuma questão, nenhuma dúvida. As coisas estavam bem claras para ele.
Tirou do bolso um maço de cigarros e uma caixa de fósforos daquelas que eram cortesia de motel. Calmamente acendeu um deles, deu uma longa tragada e passou a fitar o nada.
__ E então? Topa?
__ Preciso pensar.
__ Tudo bem.
__ Quanto tempo eu tenho pra pensar?
__ Um cigarro inteiro.
Sentei no banco do passageiro e coloquei a mochila no chão entre meus pés. Olhando ela ali, toda cheia de objetos inúteis, me perguntei quando passaria a usar bolsas de garotas. Guardar somente os documentos necessários e um batom. Sim, era isso que me faltava, um batom.
Nunca pensei que uma inocente carona até o metrô pudesse me causar tanta felicidade. Era um trajeto curto que levaria apenas uns 20 minutos. E seriam os poucos quilômetros mais esperados da minha semana.
Então tentei puxar assunto, perguntando e aí como vão as coisas, e ele respondeu falando da rotina. Contou das novidades, correrias, dissabores e planos. Mas tanto fazia se me falava dos traumas de infância ou do último bom filme que viu. Quiçá podia até me xingar, pois a única coisa que importava era ouvir aquela voz calma e ritmada.
Rezei para que os quarteirões dobrassem de tamanho, ou algum trânsito infernal surgisse àquela hora da noite. Assim a conversa superficial duraria mais.
Sorri e concordei. Dei risadas e fiz uma piadinha ou outra. Será que eu posso colocar a mão no cabelo dele, me perguntei.
E chegamos, com o carro parado no farol perguntei se deveria pular alí mesmo, torcendo pra que ele dissesse não, desça somente quando chegarmos na minha casa. Mas ele respondeu que alí era meu ponto final.
Inclinei o corpo para dar um beijo de boa noite e ele virou bastante o rosto, aparentemente com medo de que fizesse o que queria e acertasse sua boca por engano. Fingi que tudo bem, agradeci e voltei pra casa.
__ E quando o amor acabar, do que falarão os poetas?
__ De alguma coisa real, talvez.
__ Moça, tá tudo bem?
__ Está sim, obrigada.
__ Mas parece que a senhora tá chorando…
__ Tá tudo legal. Obrigada mesmo.
__ Não precisa de nada?
__ Não… eu acho. Me responde: quantas vezes mais eu vou atravessar a passarela desse metrô chorando?
__ Olha, não sei. Não sei mesmo. Mas Jesus te ama.
“Pelo menos”, penso. E o rapaz corre para entrar no vagão vazio.
__ Mas no fim, o que é a vida?
__ É um jogo de azar.
__ Desses que você tem que contar com a sorte?
__ Não, é um jogo de azar, não de sorte. Azar, sabe? Você perde. Perde dias, meses, anos, parentes, amigos, cabelos, saúde, sanidade e no fim a esperança.
__ E a sorte?
__ A sorte… bem, a sorte propriamente não entra nessa história. Talvez um pouco de astúcia.
Acordei todos os dias com a sensação de que finalmente iria enlouquecer.
Estive 365 vezes errada.
Houve um tempo em que eu era um só.
Mas aí aconteceu. Não consigo datar quando (ou quem). E desde então me encontro em duas metades irreconciliáveis.