Dos dias não tão bons.
Me ouça. Você consegue ouvir? E entender? Pode carregar algumas das minhas palavras? É só por um tempo, eu prometo. Meu silêncio ficou pesado demais com todas elas.
Sente-se alí naquela cadeira, é confortável, eu garanto. Vai levar umas boas horas até tudo acabar. Eu vou cuspir frases desconexas de forma ininterrupta até sua cabeça doer.
Até a minha parar.
No começo não vai fazer muito sentido, e sinceramente, talvez não faça nenhum no final. Vou te contar dos contos de fadas e das princesas errantes. Vou vomitar as histórias mais fantasiosas que já imaginei.
Então vou me lembrar por que comecei. E dizer das flores, das dores e dos amores que já não tem mais pétalas. Dos trens em que não pude embarcar, e das doses que por minha culpa foram pagas.
Você vai assentir e dizer que está tudo bem.
Daí o silêncio.
Houve um tempo em que eu era um só.
Mas aí aconteceu. Não consigo datar quando (ou quem). E desde então me encontro em duas metades irreconciliáveis.
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