Dos dias não tão bons.
__ Chegamos.
__ Nossa, foi rápido. Achei que ia demorar muito mais que isso.
__ Que nada, eu não moro tão longe assim da superfície.
__ Então é esse aí o lugar?
__ Sim. Aí.
__ É uma caixa bacana… De sapatos, né?
__ Isso.
__ Como você entra aí?
__ Olha, pra falar a verdade eu não sei. Eu só entrei uma vez e não me lembro como foi. Antes eu também morava na superfície, daí um dia eu acordei lá dentro.
__ Ah… E pra sair? É por aquele buraco alí?
__ Não, não. Eu não saio. Nunca consegui. O buraco é por onde eu vejo o lado de fora.
__ Putz, mas é super pequeno! Não dá nem pra ver com os dois olhos.
__ Pois é.
__ Mas sei lá. Parece bom, tranquilo… Divide a caixa com mais algum morador?
__ Ah sim, é foda isso. Eu preferiria não dividir com ninguém, mas nem rolou. Tem um cara meio paranóico que geralmente fica fora. Não sei por onde anda, e tenho até medo de perguntar. Só que as vezes ele aparece.
__ Pô, mas a caixa é grade, tem espaço de sobra pros dois.
__ Tem sim, o problema é quando muda de tamanho e aperta. Fica minúsculo e aí a gente se esbarra o tempo todo. Dá pra sentir o cheiro do cara. Nojento isso. Fora que quando próximo, ele me olha de um jeito meio bizarro, parece que vai me morder ou coisa do tipo.
__ Foda…
__ É…
__ Mas você tá querendo se mudar então?
__ Sim. O mais rápido possível. Voltar pra superfície.
__ Legal, faz o seguinte, vou aproveitar que hoje é folga e vou te levar num camarada meu. Acho que ele pode te ajudar.
Houve um tempo em que eu era um só.
Mas aí aconteceu. Não consigo datar quando (ou quem). E desde então me encontro em duas metades irreconciliáveis.
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