Sentei no banco do passageiro e coloquei a mochila no chão entre meus pés. Olhando ela ali, toda cheia de objetos inúteis, me perguntei quando passaria a usar bolsas de garotas. Guardar somente os documentos necessários e um batom. Sim, era isso que me faltava, um batom.

Nunca pensei que uma inocente carona até o metrô pudesse me causar tanta felicidade. Era um trajeto curto que levaria apenas uns 20 minutos. E seriam os poucos quilômetros mais esperados da minha semana.

Então tentei puxar assunto, perguntando e aí como vão as coisas, e ele respondeu falando da rotina. Contou das novidades, correrias, dissabores e planos. Mas tanto fazia se me falava dos traumas de infância ou do último bom filme que viu. Quiçá podia até me xingar, pois a única coisa que importava era ouvir aquela voz calma e ritmada.

Rezei para que os quarteirões dobrassem de tamanho, ou algum trânsito infernal surgisse àquela hora da noite. Assim a conversa superficial duraria mais.

Sorri e concordei. Dei risadas e fiz uma piadinha ou outra. Será que eu posso colocar a mão no cabelo dele, me perguntei.

E chegamos, com o carro parado no farol perguntei se deveria pular alí mesmo, torcendo pra que ele dissesse não, desça somente quando chegarmos na minha casa. Mas ele respondeu que alí era meu ponto final.

Inclinei o corpo para dar um beijo de boa noite e ele virou bastante o rosto, aparentemente com medo de que fizesse o que queria e acertasse sua boca por engano. Fingi que tudo bem, agradeci e voltei pra casa.