Dos dias não tão bons.
E se esse trem descarrilhasse, pensei.
De certo ele ficaria sabendo da minha morte. Esse tipo de informação emerge de escombros, vai de ouvido em ouvido, de boca em boca, passa pelo velório incorformado, no desespero dos parentes desconsolados, escorrega das mãos dos amigos íntimos, aparece nos e-mails de colegas de trabalho, vira rumor de pessoas distantes e sempre pára numa mesa de bar.
Mas a notícia chegaria com um certo atraso. Uns quarenta minutos depois da hora combinada ele chegaria a conclusão que realmente havia levado um fora. Ficaria furioso com a minha falta de consideração. Essa pilantra que não se deu o trabalho de dizer uma desculpa esfarrapada e nem atende a porra do celular! Se arrependeria de ter feito a barba, e também por não ter considerado o convite da Belina, a morena das aulas de laboratório. Tá certo que essa não lhe encantava como a aquela cretina que não apareceu, mas vinha se empenhando em trazer os relatórios prontos, e nas últimas semanas fazia convites descaradamente desesperados. Será que ainda dá tempo de ligar para Belina?
Um dia ou dois depois alguém contaria do desastre e então surgiria o típico buraco no estômago. Apesar de ninguém saber o que ele pensou a meu respeito, teria vergonha a ponto de querer sumir. Contaria a alguns poucos amigos que diriam sentir muito, mas na verdade se sentiriam bastante aliviados de não ser nenhum deles a quem o azar bateu na porta, e ainda ter vida atrás dos telefones pros quais eles ligam quando bate uma vontade de colo.
Algumas semanas de vazio no peito, uma série de perguntas sobre o sentido da vida. Aquela vontade louca de fazer e amar tudo que a gente sempre deixa pra amanhã. Daí a rotina ia voltar pro palco, sob a luz do holofote.
E seria tudo e só isso.
Ele não teria que passar um mês fora de casa sem poder olhar pro sofá, lembrando dos domingos que passei alí esparramada dentro de roupas nada sensuais. Nem teria que aumentar o trajeto pra casa em 3 quarteirões só não ver na vitrine um vestido que ficaria tão bem em mim. Se polparia de assistir os amigos que cumprimentam com tom de piedade, como se isso pudesse trazer algum consolo. Coitadinho, tão abatido, mas ele é jovem e há de encontrar outra que o realize.
Até porque ele ainda nem sabe que não tenho uma cor favorita, ou que prefiro meu café gelado. Que sou feliz com coisas simples como pijamas limpos e piadas de mal gosto. Nem que ansio por vê-lo.
Saltei na estação sã e salva.
Tomara que a Belina não seja tão bonita assim.
Houve um tempo em que eu era um só.
Mas aí aconteceu. Não consigo datar quando (ou quem). E desde então me encontro em duas metades irreconciliáveis.
Felipi Forbeci Freo
outubro 8th, 2010 at 3:05
Estava a caminho do fim quando pude ler seus pensamentos…
Acredito que é o tipo de coisa que só acontece vez ou outra quando estamos no limiar de passar para o outro mundo.
Via pelas suas costas um sinuoso corpo, era bela sim, mas sem exageros, na medida certa para disparar o coração de qualquer rapaz.
Foram apenas alguns segundos, mas como em um sonho, esses segundos pareceram horas, minha mente acompanhava todos os detalhes da sua expressão. Pela porta de vidro, vi seu reflexo, será que ela precisa de uma palavra ou abraço?
Ela disse a mim, por pensamentos, que estava com pressa, não saia de perto daquela porta, nem com os movimentos bruscos dos recém embriagados que iam da obra da nova ponte para a casa espancar suas mulheres.
E a todo momento contava as estações, seu sorriso me lembrava crianças no Natal.
De repente, um ar de melancolia a tomou,
Como se fosse uma onda, por um momento, todos a sua volta estavam estupefatos como cães de rua na chuva após dias de fome e de serem expulsos da sua casinha de papelão por um catador qualquer.
Saudoso papelão…
Qual seria o nome dela? Ela não tem cara de Sofia.., melhor eu ir perguntar.
Será que ela está lendo meus pensamentos assim como leio os dela?
-Boa noite bela dama, você é a Sofia???
-Você sabia que a cada dia que passa, corro as doze quadras como um louco para entrar aqui na exata hora que seu vagão vai passar?
-Sabia que decorei as roupas que gosta de usar nas quintas feiras e que aprendi na guitarra todos os toques do seu celular?
-Eu apenas nunca consegui decifrar sua cor predileta, e esse é único motivo que me impede de deixar um presente na sua mochila, que as vezes fica aberta…
Sem resposta…
Pelo jeito achar que consigo ler os pensamentos dela é uma viagem, um provável efeito colateral desse maldito café gelado…
É mais uma vez minha mente arlequina trazendo ela ao meu mundo particular, adaptando elementos da minha rotina a um trecho tenso de um filme que passou na madrugada de ontem.
“o trem descarrihou e ela perdeu um encontro…” fico até impressionado com a criatividade dos meus pensamentos…
Um dia ela ainda vai olhar pra mim e dizer que há tempos espera que eu a convide para passar a noite de lua cheia na beira do lago bebendo aquele vinho dos mais baratos e fazendo ela rir…
Enquanto isso, aceito o convite da Belina pra dar uma bagunçada debaixo das cobertas dela
A garota do trem não sabe que eu gosto dela
E ela saltou na estação, sã e salva…
Fêe
outubro 14th, 2010 at 0:18
Hoje eu saí mais cedo do trabalho.
Com charutos na mão, meu chefe chegou pela manhã dizendo que sua filhinha havia nascido neste feriado, e levou todo mundo para tomar umas duas ou doze rodadas de cerveja num bairro perto.
Primeira cerveja, que delícia, nada melhor do que compartilhar esse momento com os amigos, como é bom participar dessa faladeira na mesa.
Segunda, terceira, quarta, neste fim de semana rolou uma viagem bacaninha, conheci pessoas que gostei, mas eu não parava de olhar o relógio…
Quinta cerveja, dia a dia nesta viagem, exatamente às cinco horas e meia da tarde, uma adrenalina tomava conta de mim, eu fiquei inquieto, a viagem estava uma delícia, mas na verdade, em pleno feriado eu queria era estar correndo aquelas doze quadras feito um louco.
Sexta cerveja, já não escuto mais nada dessa balburdia, esse papo do pessoal do financeiro que só sabe dizer como vai ser terrível o ano que vem caso tal candidata vença as eleições ou algum assunto sobre uma república popular de não onde que acabou de surgir, apenas viajo em pensamentos e lembranças, …que saudade daquele trem.
Sétima, oitava e nona, já me calei tempo demais! quando encontrá-la de novo, ela vai ter que parar e me ouvir! Assim que a porta fechar começarei a destilar as palavras do meu discurso ensaiado, o mesmo discurso que já repeti para mim mesmo todos os dias nesses últimos meses, o discurso de exatos 156 segundos, tempo entre a penúltima e última estação dela, ela terá que ouvir, não há saída!
Décima, acho que é má idéia…
Décima primeira, coragem… …eu tenho coragem, seja lá qual for a reação dela o destino está escrito, eu falo, ela escuta, ela decide, eu acato.
Décima segunda cerveja, não há o que sair errado, quando ela souber o que sinto por ela, ela ficará muda, talvez chocada, mas me dará aquele abraço de perder as estações de vista!
A conta fechou, e está na hora de ir embora, já estou decidido, vou recitar todo o livro entalado na minha garganta! Pena que não pode ser hoje, já são 18 horas e 3 minutos, perdi o trem dela há 21 minutos, mas que vou falar eu vou!
Se eu tivesse o telefone dela, já imagino a cena: ela está no trem, algumas estações para a frente, mas eu vou esperar mais uma, para aquela onde o sinal do celular é melhor. Ela ia estar lá, pensando na vida, olhando pela janela, com sua sapatilha de bailarina e cabelo channel característicos da quarta feira, no celular dela, ia começar aquela discreta e esquisita música que ela configurou para os toques de chamadas desconhecidas semana passada, sem saber o que esperar, vou falar sem parar e sem respirar, aah vou sim!
Mas eu não tenho o telefone dela, fica pra amanhã e… Acabei de ser interrompido pela Van, que me deu carona para minha estação hoje depois da comemoração da tarde, me dizendo:
-Acorda! É aqui que você desce não é mesmo?
- Brigado Van, até amanhã
Como é diferente descer essas escadas devagar, nunca reparei que havia este tipo de arte nos corredores… conseqüência de passar correndo por aqui todo dia
Passo pela catraca e vejo o trem logo a frente, mas hoje já não estou mais com pressa, pego o próximo.
Chega o outro trem, abrem as portas. Hoje não vou pegar o vagão da ponta, está muito longe e eu estou meio altinho, acho que aquela coxinha do do happy hour me fez mal, estou meio tonto e trançando as pernas quando ando, será que foi a cerveja? Não não, foi a coxinha que me fez mal, eu tenho certeza…
Andando aos tropeços, e bem zonzo, entro em um vagão qualquer, louco pra chegar em casa, entrei, fiquei na porta olhando para fora e a porta fechou. Estou tão delirante, que pelo vidro vejo a silhueta dela vindo na minha direção, minha mente a mil já desarquiva o discurso para a presença imaginária dela pela porta já fechada.
-(voz do maquinista) Senhores passageiros, por favor, não segurem as portas para sua segurança.
Nesse momento, todas portas se abrem para fechar de novo, o pessoal lá de fora se espreme pra aproveitar a brecha do maquinista e entrar agora, alguém esbarra com força em mim e perco o equilíbrio, já preparo para me virar para o lado falando todas as palavras sujas que o estagiário do gueto me ensinou quando presenciei um taxista derrubar sua moto na frente da empresa, e nessa fração de segundo, antes do meu pescoço terminar de girar para a direção deste infeliz desastrado, escuto uma voz que me faz arrepiar desde os dedos do meu pé até lugares da minha alma que eu nem sabia que existiam…
…(voz da garota do trem) er.. desculpa?!
Em silêncio total, com um passo saí do trem e a porta se fechou atrás de mim.
Ainda em choque virei e olhei para o trem e boquiaberto confirmei que era ela.
Merda, cadê minha mochila?