Dos dias não tão bons.
Eu, com a minha sincera esperança tipicamente infantil, me perguntava quando seria a minha vez.
Mas a sorte, essa filha ingrata do destino, resolveu não mudar de opinião. Se limitou a me olhar com tom de deboche e dizer:
__ Mas que menina BURRA! - e começou a rir - Ainda não aprendeu que não é você [...]
Toda a plenitude da doçura
toda a complexidade da loucura
acabaram com um só tiro na cabeça.
Há coisas que eu nasci para.
E há outras que eu simplesmente nasci para não.
Eu me lembro da época em que o som do nosso carro era um toca-fitas meio capenga, e ficava sempre sintonizado em uma rádio popular que hoje eu não teria coragem de ouvir nem por amor.
A música servia para ocupar o espaço entre as bocas fechadas e a nossa falta de afinidades e empatia.
E se esse trem descarrilhasse, pensei.
De certo ele ficaria sabendo da minha morte. Esse tipo de informação emerge de escombros, vai de ouvido em ouvido, de boca em boca, passa pelo velório incorformado, no desespero dos parentes desconsolados, escorrega das mãos dos amigos íntimos, aparece nos e-mails de colegas de trabalho, vira rumor de pessoas [...]
Ainda que eu tenha andado sozinha e sem rumo pelo vale das sombras e da morte, encontrei o caminho dos verdes pastos, o antigo inacreditado reino das águas tranquilas.
E peço, ó Deus, não deixe novamente que o mal sinta meu cheiro, me veja ou estenda a sua mão. E assim, por mais nada hei de temer.
Amém.
Era como se estivéssemos ligados não pelo amor, pela paixão, pela posse ou até pela dependência financeira. Nosso elo era a pura loucura.
Se fosse a minha, tudo bem, estava acostumada ao meu mundo imaginário distorcido.
Mas do outro mundo insano quando entrei eu nada conhecia. E mesmo depois de anos frequentando os becos sujos de sua [...]
__ E quando foi que você começou a mentir?
__ Foi na época que a vontade sumiu.
__ Ela sumiu de repente?
__ Não, não. Foi aos poucos. Daquelas mortes lentas, dolorosas e graduais. Primeiro foi a vontade da cor, depois a vontade da forma. Um dia percebi tinha perdido a vontade do sabor, do cheiro e do [...]
De que me adianta então saber seus nomes, se eles não sabem o meu?
Embora ainda estivesse de roupas, me sentia como se estivesse completamente nua.
No canto esquerdo da cama, sapatos, camisa e uma carteira com fotos de crianças. O quarto era grande, e o mundo lá fora parecia tão pequeno.
Eu olhei para ele e disse:
__ Essa vai ser a última vez.
Ele respondeu:
__ A outra também era, e eu [...]
Houve um tempo em que eu era um só.
Mas aí aconteceu. Não consigo datar quando (ou quem). E desde então me encontro em duas metades irreconciliáveis.