Proposta

5 mai 2010 In: Sem categoria

O rapaz jovem ouviu atentamente a proposta sem dizer nada. Nenhuma questão, nenhuma dúvida. As coisas estavam bem claras para ele.

Tirou do bolso um maço de cigarros e uma caixa de fósforos daquelas que eram cortesia de motel. Calmamente acendeu um deles, deu uma longa tragada e passou a fitar o nada.

__ E então? Topa?
__ Preciso pensar.
__ Tudo bem.
__ Quanto tempo eu tenho pra pensar?
__ Um cigarro inteiro.

Carona

2 mai 2010 In: Sem categoria

Sentei no banco do passageiro e coloquei a mochila no chão entre meus pés. Olhando ela ali, toda cheia de objetos inúteis, me perguntei quando passaria a usar bolsas de garotas. Guardar somente os documentos necessários e um batom. Sim, era isso que me faltava, um batom.

Nunca pensei que uma inocente carona até o metrô pudesse me causar tanta felicidade. Era um trajeto curto que levaria apenas uns 20 minutos. E seriam os poucos quilômetros mais esperados da minha semana.

Então tentei puxar assunto, perguntando e aí como vão as coisas, e ele respondeu falando da rotina. Contou das novidades, correrias, dissabores e planos. Mas tanto fazia se me falava dos traumas de infância ou do último bom filme que viu. Quiçá podia até me xingar, pois a única coisa que importava era ouvir aquela voz calma e ritmada.

Rezei para que os quarteirões dobrassem de tamanho, ou algum trânsito infernal surgisse àquela hora da noite. Assim a conversa superficial duraria mais.

Sorri e concordei. Dei risadas e fiz uma piadinha ou outra. Será que eu posso colocar a mão no cabelo dele, me perguntei.

E chegamos, com o carro parado no farol perguntei se deveria pular alí mesmo, torcendo pra que ele dissesse não, desça somente quando chegarmos na minha casa. Mas ele respondeu que alí era meu ponto final.

Inclinei o corpo para dar um beijo de boa noite e ele virou bastante o rosto, aparentemente com medo de que fizesse o que queria e acertasse sua boca por engano. Fingi que tudo bem, agradeci e voltei pra casa.

Poesia

5 mar 2010 In: Sem categoria

__ E quando o amor acabar, do que falarão os poetas?

__ De alguma coisa real, talvez.

Metrô

28 fev 2010 In: Sem categoria

__ Moça, tá tudo bem?

__ Está sim, obrigada.

__ Mas parece que a senhora tá chorando…

__ Tá tudo legal. Obrigada mesmo.

__ Não precisa de nada?

__ Não… eu acho. Me responde: quantas vezes mais eu vou atravessar a passarela desse metrô chorando?

__ Olha, não sei. Não sei mesmo. Mas Jesus te ama.

“Pelo menos”, penso. E o rapaz corre para entrar no vagão vazio.

Jogo da vida

26 fev 2010 In: Sem categoria

__ Mas no fim, o que é a vida?

__ É um jogo de azar.

__ Desses que você tem que contar com a sorte?

__ Não, é um jogo de azar, não de sorte. Azar, sabe? Você perde. Perde dias, meses, anos, parentes, amigos, cabelos, saúde, sanidade e no fim a esperança.

__ E a sorte?

__ A sorte… bem, a sorte propriamente não entra nessa história. Talvez um pouco de astúcia.

2009

31 dez 2009 In: Sem categoria

Acordei todos os dias com a sensação de que finalmente iria enlouquecer.

Estive 365 vezes errada.

Suportar

13 nov 2009 In: Sem categoria

__ Você não tinha me falado nada disso das outras vezes… Como está fazendo pra aguentar?

__ É isso… Na verdade eu não estou aguentando mais.

A verdade sobre o amor

29 set 2009 In: Sem categoria

Li certa vez, e por mais que force a mente não consigo lembrar onde, uma frase simples. Faço dessas palavras o resumo das minhas histórias:

“O amor é só mais uma forma de violência.”

Amigas

24 set 2009 In: Sem categoria

_ Acho que você deveria parar de olhar pra ela assim.

_ Oi?

_ É, sabe? Você poderia fazer um esforço e ser gentil.

_ Cara, de que porra você tá falando?

_ Dela.

_ Dela quem?

_ Dela (ergue o queixo na direção da mulher de vestido).

_ Dela!?

_ É. Dela.

_ Você tá brincando comigo, né? Eu vou levar esse comentário ridículo como uma piada e esquecer que isso aconteceu. Ok?

_ Mas o que tem de errado? Pode ser uma boa idéia.

_ Boa idéia o meu rabo. Eu simplesmente não acredito que você está dizendo isso pra mim!

_ Cara, você não acha que está sendo ridícula demais? Infatil demais? Não acha que tá na hora de crescer e encarar que isso não tem nada a ver?

_ Ah, então não tem nada a ver? É tudo uma encenação infantil?

_ Lógico que é, porra! Eles praticamente não tem mais nada, estão juntos por causa das crianças, e você fica com essa cara emburrada. Você sabe que é de você que ele gosta, mas causa esse climão ridículo e sem fundamento.

_ Olha, você não é meu amigo e não tem o direito de falar assim de mim.

_ Mas eu sou amigo dele e acho completamente injusto com eles que…

_ ACHA INJUSTO O QUE, INFERNO? (algumas cabeças se viram em direção a eles, enquanto outras, claramente constrangidas, tentam fingir que nada acontece)

_ Que você aja assim, porque…

_ Porque mais nada! Chega! Agora a errada sou eu!? Olha, pode ser infantil? Pode! Pode ser imaturo? Pode!Mas foda-se. É o que eu sinto. Eu sou mulher, sabe? E eu queria ser especial, sabe? Se alguém aqui não tem nada, esse alguém sou eu. Quando ele me deixa no metrô, é pra casa dela que ele volta. E quem dorme sozinha é a biscate aqui! Enquanto estou em casa esperando as horas passarem pra entrar na merda do carro dele, é com ela e os filhos que ele está. É com eles que ele mora. Eles são a família dele, não eu. É pra mãe dela que ele conta piadas. É pras tias dela que ele faz força pra não rir das roupas ridículas. É pro pai dela que ele finge que gosta de futebol. Ela é a melhor amiga dele. Ela esteve nos momentos ruins. Ela sabe de todos os detalhes e todos os segredos. Ela dá os melhores presentes e os melhores momentos. E eu? Sabe com que eu fico? Eu fico com a cama.

24 set 2009 In: Sem categoria

Havia jurado pra mim que nunca mais faria isso. Mas como todas as outras juras e promessas, não consegui cumprir.

Partilhei de novo o vinho de qualidade duvidosa. Senti a insegurança da adolescência e o sofrimento prematuto e sem sentido. Contei as mesmas histórias, ri das mesmas piadas, me deixei invadir pelo mesmo medo e senti pena de mim pelo mesmo motivo.

Talvez agora, pela milésma vez, as coisas já não sejam tão atordoantes como antes. Mas mesmo assim, continuam extremamente desagradáveis.

Continuo precisando de uma ajuda, de um braço e de um abraço. De uma solução mágica pelos problemas que não existem.

Agradeço a amizade, os ouvidos, os ombros e os conselhos que serão eternamente repetidos.

Sobre o blog

Houve um tempo em que eu era um só.

Mas aí aconteceu. Não consigo datar quando (ou quem). E desde então me encontro em duas metades irreconciliáveis.