Confissão

10 set 2009 In: Sem categoria

Jesus, eu tenho um problema. São as noites escandalosas que não me deixam dormir.

Jesus, eu tenho um problema. É a culpa das coisas que eu não fiz.

Jesus, eu tenho um problema. São todos os silêncios que eu gritei.

E ela me disse, Jesus, que eu te contasse.

E ela me disse, Jesus, que então eu pedisse.

Por isso agora eu conto. Falo das vezes que eu matei. Dos finais que eu destruí.

Por isso agora eu peço. Devolve o dia tranquilo que eu nunca tive.

Caixa de sapatos

29 ago 2009 In: Sem categoria

__ Chegamos.

__ Nossa, foi rápido. Achei que ia demorar muito mais que isso.

__ Que nada, eu não moro tão longe assim da superfície.

__ Então é esse aí o lugar?

__ Sim. Aí.

__ É uma caixa bacana… De sapatos, né?

__ Isso.

__ Como você entra aí?

__ Olha, pra falar a verdade eu não sei. Eu só entrei uma vez e não me lembro como foi. Antes eu também morava na superfície, daí um dia eu acordei lá dentro.

__ Ah… E pra sair? É por aquele buraco alí?

__ Não, não. Eu não saio. Nunca consegui. O buraco é por onde eu vejo o lado de fora.

__ Putz, mas é super pequeno! Não dá nem pra ver com os dois olhos.

__ Pois é.

__ Mas sei lá. Parece bom, tranquilo… Divide a caixa com mais algum morador?

__ Ah sim, é foda isso. Eu preferiria não dividir com ninguém, mas nem rolou. Tem um cara meio paranóico que geralmente fica fora. Não sei por onde anda, e tenho até medo de perguntar. Só que as vezes ele aparece.

__ Pô, mas a caixa é grade, tem espaço de sobra pros dois.

__ Tem sim, o problema é quando muda de tamanho e aperta. Fica minúsculo e aí a gente se esbarra o tempo todo. Dá pra sentir o cheiro do cara. Nojento isso. Fora que quando próximo, ele me olha de um jeito meio bizarro, parece que vai me morder ou coisa do tipo.

__ Foda…

__ É…

__ Mas você tá querendo se mudar então?

__ Sim. O mais rápido possível. Voltar pra superfície.

__ Legal, faz o seguinte, vou aproveitar que hoje é folga e vou te levar num camarada meu. Acho que ele pode te ajudar.

Ouça.

20 ago 2009 In: Sem categoria

Me ouça. Você consegue ouvir? E entender? Pode carregar algumas das minhas palavras? É só por um tempo, eu prometo. Meu silêncio ficou pesado demais com todas elas.

Sente-se alí naquela cadeira, é confortável, eu garanto. Vai levar umas boas horas até tudo acabar. Eu vou cuspir frases desconexas de forma ininterrupta até sua cabeça doer.

Até a minha parar.

No começo não vai fazer muito sentido, e sinceramente, talvez não faça nenhum no final. Vou te contar dos contos de fadas e das princesas errantes. Vou vomitar as histórias mais fantasiosas que já imaginei.

Então vou me lembrar por que comecei. E dizer das flores, das dores e dos amores que já não tem mais  pétalas. Dos trens em que não pude embarcar, e das doses que por minha culpa foram pagas.

Você vai assentir e dizer que está tudo bem.

Daí o silêncio.

Sobre o blog

Houve um tempo em que eu era um só.

Mas aí aconteceu. Não consigo datar quando (ou quem). E desde então me encontro em duas metades irreconciliáveis.