Dos dias não tão bons.
Jesus, eu tenho um problema. São as noites escandalosas que não me deixam dormir.
Jesus, eu tenho um problema. É a culpa das coisas que eu não fiz.
Jesus, eu tenho um problema. São todos os silêncios que eu gritei.
E ela me disse, Jesus, que eu te contasse.
E ela me disse, Jesus, que então eu pedisse.
Por isso agora eu conto. Falo das vezes que eu matei. Dos finais que eu destruí.
Por isso agora eu peço. Devolve o dia tranquilo que eu nunca tive.
__ Chegamos.
__ Nossa, foi rápido. Achei que ia demorar muito mais que isso.
__ Que nada, eu não moro tão longe assim da superfície.
__ Então é esse aí o lugar?
__ Sim. Aí.
__ É uma caixa bacana… De sapatos, né?
__ Isso.
__ Como você entra aí?
__ Olha, pra falar a verdade eu não sei. Eu só entrei uma vez e não me lembro como foi. Antes eu também morava na superfície, daí um dia eu acordei lá dentro.
__ Ah… E pra sair? É por aquele buraco alí?
__ Não, não. Eu não saio. Nunca consegui. O buraco é por onde eu vejo o lado de fora.
__ Putz, mas é super pequeno! Não dá nem pra ver com os dois olhos.
__ Pois é.
__ Mas sei lá. Parece bom, tranquilo… Divide a caixa com mais algum morador?
__ Ah sim, é foda isso. Eu preferiria não dividir com ninguém, mas nem rolou. Tem um cara meio paranóico que geralmente fica fora. Não sei por onde anda, e tenho até medo de perguntar. Só que as vezes ele aparece.
__ Pô, mas a caixa é grade, tem espaço de sobra pros dois.
__ Tem sim, o problema é quando muda de tamanho e aperta. Fica minúsculo e aí a gente se esbarra o tempo todo. Dá pra sentir o cheiro do cara. Nojento isso. Fora que quando próximo, ele me olha de um jeito meio bizarro, parece que vai me morder ou coisa do tipo.
__ Foda…
__ É…
__ Mas você tá querendo se mudar então?
__ Sim. O mais rápido possível. Voltar pra superfície.
__ Legal, faz o seguinte, vou aproveitar que hoje é folga e vou te levar num camarada meu. Acho que ele pode te ajudar.
Me ouça. Você consegue ouvir? E entender? Pode carregar algumas das minhas palavras? É só por um tempo, eu prometo. Meu silêncio ficou pesado demais com todas elas.
Sente-se alí naquela cadeira, é confortável, eu garanto. Vai levar umas boas horas até tudo acabar. Eu vou cuspir frases desconexas de forma ininterrupta até sua cabeça doer.
Até a minha parar.
No começo não vai fazer muito sentido, e sinceramente, talvez não faça nenhum no final. Vou te contar dos contos de fadas e das princesas errantes. Vou vomitar as histórias mais fantasiosas que já imaginei.
Então vou me lembrar por que comecei. E dizer das flores, das dores e dos amores que já não tem mais pétalas. Dos trens em que não pude embarcar, e das doses que por minha culpa foram pagas.
Você vai assentir e dizer que está tudo bem.
Daí o silêncio.
Houve um tempo em que eu era um só.
Mas aí aconteceu. Não consigo datar quando (ou quem). E desde então me encontro em duas metades irreconciliáveis.